sábado, 20 de junho de 2015

XXVIII FIMUPA: CONCERTO DE ABERTURA

     
Como é tradição, o concerto de abertura do Festival Internacional de Música do Pará aconteceu na principal casa de espetáculos paraenses, o Teatro da Paz, claro, localizado na capital paraense.
     Na sua 28ª edição o FIMUPA se aproxima de suas três décadas de vida lutando para se manter na ativa e recuperar o viço de outrora, temporariamente perdido de forma perigosa durante o governo petista de Ana Júlia Carepa.
     Paulo José Campos de Melo, junto com os funcionários da Fundação Carlos Gomes e dos músicos paraenses e estrangeiros que arregação as mangas e com força de vontade e garra fazem acontecer mais uma edição do nosso maior festival musical em meio a mais uma crise financeira, daquelas que perturbam a saúde do povo há décadas. Não é demais registrar o interesse do atual governador do Pará, Simão Robson Jatene, em garantir parte das verbas que garantem a ressurreição do FIMUPA das cinzas petistas em que ele se encontrava. Mas isso não faz de mim um defensor de tucanos, viu!
     Quanto ao concerto propriamente dito foi bastante variado. Começou com Carlos Gomes e terminou, sem bis, com Bártok, passando por compositores romanticos brasileiros e o italiano Ettore Bosio. O paraense Wilthon Matos (tuba) e a moscovita Anna Firsanova, filha de Sergei Firsanov,  foram os solistas nesta noite de abertura.
     O concerto começou com a reluzente Alvorada, intermezzo da ópera Lo Schiavo de Antônio Carlos Gomes, paulista que fez a maior parte de sua conturbada carreira operística no Scalla de Milão e foi esquecido pelos teatros de ópera no século XX, ficando resumido ao seu país de origem , o Brasil, que nunca deixou de reverenciá-lo com gênio da ópera que foi. Essa peça orquestral, em particular, é uma das mais famosas e deslumbrantes páginas de Gomes. Construída num crescendo onde os tons "escuros" pouco a pouco vão dando lugar a tons mais "claros" até alcançarem a explosão de luminosidade alcançada na sua secção final. Para quem uma percepção musical aguçada, este é um momento de clímax daqueles de nos deixar com a pele arrepiada. Nesta apresentação a orquestra não conseguiu uma execução 100% devido aos compassos desafinados próximo da secção inicial do naipe dos violinos. Passado esse problema, o restante da execução foi satisfatório sem prejudicar o resultado final e a beleza da obra que prima pelo brilhantismo e representa bem em música o nascer do sol.
     Uma excelente escolha de repertório de Campos Neto foram os compositores paraenses Paulino Chaves e Gama Malcher e do italiano, radicado no Pará em vida, Ettore Bosio, todos da estética romântica tardia.
     O Prelúdio em C menor de Paulino Chaves já foi várias vezes executado por Campos Neto nos últimos dois anos, fazendo-o amadurecer na sua leitura. As obras de Bosio e Gama Malcher foram executadas em menor número que a antecessora, mas deveriam ser mais frequentes nos concertos em Belém dada a suavidade e beleza de ambas.
   Dois momentos de destaque no programa foram os concertos de tuba (Vaughan Williams) e de viola (Bártok). Foi a primeira vez que ouvi esses concertos ao vivo em Belém e fiquei muito grato, pois assim saímos do marasmo repetitivo de obras do período clássico e romântico que infestam os programas de concerto pelo planeta e dão ao público "desentendido" em música erudita a noção de que somente este dois períodos foram capazes de escrever música digna de figurar nos programas de concerto e no panteão histórico-musical.
    Tanto Wilthon quanto Anna brilharam em seus respectivos instrumentos e tocaram com destreza técnica estas duas partituras novecentistas de dois dos maiores músicos do século XX; Ralph Vaughan-Williams, inglês de sólida formação musical e Bártok, que muitos músicos tapados consideram "estranho", mas que é um dos mais inteligentes pesquisadores da música folclórica entre os nacionalistas e, também, entre todos os compositores do panteão musical.
     Ao final, e talvez pela avançada hora, o concerto terminou com muitos aplausos mas sem bis. Esse já havia sido dado por Wilthon Matos ao fim de sua execução do concerto de Vaughan-Williams.

Programa:

Antonio Carlos Gomes (1836-1896)

Alvorada, intermezzo da ópera Lo Schiavo


Ralph Vaughan-Williams (1872-1658)

Concerto para tuba e orquestra
I - Preludio: Allegro moderato
II - Romanza: Andante sostenuto
III - Finale: Rondo alla tedesca: Allegro

Ettore Bosio (1862-1936)

A taboca do Ceguinho

Paulino Chaves (1880-1948)

Prelúdio em C menor

Intervalo

Gama Malcher (1853-1921)

Prelúdio da ópera "Iara"

Béla Bártok (1881-1945)

Concerto para viola e orquestra (comp. 1945)
I - Moderato
II - Adagio Religioso
III - Allegretto vivace

Vídeos: 

Carlos Gomes: Alvorada de Lo Schiavo


Vaughan Williams: Concerto para tuba.



Bis: Rabisco Sonoro


Gama Malcher: Prelúdio da ópera Iara




Informações do Programa:

WILTHON MATOS


    Natual de Belém/PA, Wilthon inicia seus estudos musicais aos treze anos em Belém com o professor Josiel Saldanha, junto a uma das Igrejas Evangélicas da Assembleia de Deus e, posteriormente, junto à Banda de Música da Universidade Federal do Pará, sob a regência do Maestro Biraelson Correa. Em 1993 ingressa no Conservatório Carlos Gomes na classe do professor Ricardo Cabrera (Rússia - Colômbia). Participante de vários encontros e festivais, em 1999 participa do concurso "Novos Talentos Brasileiros" (RJ), recebendo os prêmios Revelação, Melhor Jovem Tubista Brasileiro e a 4ª. colocação geral no concurso. Em 2001 foi semifinalista do "Lieksa Internacional Tuba Competition", participando também da "International Tuba and Euphonium Conference" na Sibelius Hall em Lahti - Finlândia e no mesmo ano, recebeu o prêmio "Melhor Músico do Ano 2001", idealizado pela Câmara Municipal de Belém/PA. Participou do I, IV e V Festival Eleazar de Carvalho". Em 2003 participa do convênio entre a Fundação Carlos Gomes e a Universidade de Columbia - Missouri - EUA, tendo classes com o professor Angelo Manzo e participando do "Great Plains Regional Tuba and Euphonium Conference" na Universidade da cidade do Kansas (Missouri/EUA), obtendo neste evento o 4º. lugar e menção honrosa no "Students Competition". Atuou junto a importantes orquestras como: Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz e da Amazônia Jazz Band (Belém/PA), Banda Sinfônica de Tunja (Colômbia) e Orquestra Sinfônica do Teatro Claudio Santoro. Desde 2008, reside em Porto Alegre atuando como tubista da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre - OSPA.

ANNA FIRSANOVA


     Natural de Moscou, Anna Firsanova mudou-se para Belém/PA, onde aos 4 anos iniciou seus estudos musicais no Conservatório Carlos Gomes, primeiro com o Prof. Nicolai Khit, e depois com seu pai, o Prof. Seguei Firsanov. Em 2004 regressou a Moscou e entrou no Academic Music College at the Moscow Conservatory. De 2006 a 2008 foi parte do grupo de solistas "Premiera" e ganhou a bolsa de Elina Bystritskaya para jovens talentos. Em 2013 se formou em viola no Tchaikovsky Moscow State Conservatory. Se apresentou em importantes festivais internacionais como: East-West Music festival, 2011 e 2012 (Austria), "Moscow's Conservatory talented youngs", 2012 (Rússia), Ohrid Summer Festival, 2013 (Macêdonia), Sviatoslav Richter's Festival in Tarusa, 2013 (Rússia).  Em 2013 ganhou o 3rd Gaydamovich Chamber music Competition, Magnitogorsk, Rússia (Grande Prêmio). Em 2014 ganhou o primeiro lugar em Fidelio Wien Wettbewerb, com o seu "Es-Que Trio". Desde 2015 é parte da orquestra de câmara "Bron Chamber", dirigida por Zahar Bron e se apresenta junto a Mannheimer Philharmoniker. Atualmente está se aperfeiçoando em Viena com o Prof. Alexander Zemtsov.

MIGUEL CAMPOS NETO

     Regente titular da Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz, do Festival de Ópera do Theatro da Paz,
da Orquestra Jovem Vale Música, da Orquestra Sinfônica Altino Pimenta (UFPA, Campos Neto também atuou cinco anos como Regente Titular e Diretor Artístico da Chelsea Symphony de Nova York e como Regente Assistente do Maestro Luiz Fernando Malheiro na Amazonas Filarmonica e no Festival Amazonas de Ópera (Manaus), Miguel Campos Neto possui diploma de Mestrado em Regência Orquestral, obtido na Mannes College of Music de Nova York. Seus Mentores foram David Hayes, Edward Dolbashian e Joseph Colaneri (regência operística). Ele já regeu concertos com grandes solistas como o pianista Nelson Freire, Antonio Meneses (cello), Robert Bonfiglio (Harmônica) e Emmanuelle Baldini (violino). Como maestro convidado já regeu a Orquestra Sinfônica de Puerto Rico, a Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas, a Orquestra Sinfônica do Theatro São Pedro (SP), os Solistas de Câmara da Universidade de Missouri (EUA), a Orquestra do Estado de Mato Grosso e a Orquestra de Câmara do Amazonas. Em 2014 regeu como convidado pela primeira vez no continente europeu, quando liderou orquestra composta de alunos da renomada Academia Franz Liszt na Grande Sala da Academia, em Budapeste, Hungria. Para 2015 estão previstos concertos em Belém, Belo Horizonte, Campinas, São Paulo e um retorno a Nova York para concertos comemorativo com a Chelsea Symphony. Durante turnes nacionais regeu em alguns dos mais importantes teatros do Brasil: Sala Leopoldo Miguez e Teatro Municipal (RJ), Teatro Nacional Claudio Santoro (Brasília), Palácio das Artes (Belo Horizonte), Teatro Ibirapuera (SP), Teatro Santa Izabel (Recife), Teatro Arthur Azevedo (São Luis) e Teatro José de Alencar (Fortaleza).

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