quinta-feira, 8 de outubro de 2015

OS PESCADORES DE PÉROLAS: XIV FESTIVAL DE ÓPERA DO TEATRO DA PAZ

     Confesso-lhes que estava preocupado com o fato de um cineasta ser contratado para dirigir uma ópera no nosso festival. Mas ele não trabalha com o visual? perguntarão vocês. Sim: respondo. Porém, cinema e ópera são linguagem diferentes que só homens que conhecem bem as duas, como Zeffirelli e Ponelle, podem fazer-lhes a junção alcançando um equilíbrio formal entre as duas linguagens; que são complexas por si só.
     Pensar uma obra de arte que será gravada, editada, reeditada e passará por vários processos de transformação até ser lançada nos cinemas é bem diferente de lhe dar com uma arte que é sonoro-visual e sempre é feita ao vivo, sem as possibilidades de se corrigir erros para torná-la perfeita. Quem erra no palco, erra para todos verem.
     Por isso, artistas de palco precisam ser 100% perfeitos ao fazer sua arte. Não há lá o "para e edita". Há o continua e não para o espetáculo.
     Pois bem, tratando-se dessa montagem da ópera de Bizet minhas expectativas foram superadas. Sabia de antemão que o cenário seria simples, mas não sabia como. Em outras montagens já havia ocorrido a simplicidade de cenários com bons efeitos, porém este projetado pelo cenógrafo Cássio Amarante é, talvez, o melhor já feito até agora no Festival.
     Um conjunto de tablados móveis foi usado para fazer-se de pontes, mirante, paredes, etc. Uma tela transparente fez imagens gravadas de maneira cinematográfica serem projetadas em momentos cruciais da ópera e a iluminação potencializou a brancura das madeiras, dando várias cores e tons claros e escuros durante a encenação.
     Cenário simples, móvel, funcional, projeto de iluminação belíssimo e a poética música de Bizet ao fundo fizeram um espetáculo visual e sensorial.
     Meirelles usou com mestria sua habilidade cinematográfica ao juntar a encenação ao vivo com imagens cinematográficas feitas com os atores da ópera previamente gravadas e editadas que, usadas em momentos específicos, aumentaram a nossa percepção da estória contada na ópera e fizeram o nosso visual ir além do palco. De fato, para quem sabe fazê-lo, o cinema é um grande aliado do teatro musical.
     Os atores desta montagem fizeram suas partes muito bem. Os três solistas brilharam vocalmente e cenicamente estiveram bem inseridos no decorrer da encenação. O Nadir de Fernando Portari merece um prêmio pela sua bela interpretação, sobretudo, da ária do tenor. Onde ele foi tecnicamente perfeito e musicalmente poético. No outro lado, Leonardo Neiva imprimiu força, alegria, tristeza e melodismo ao seu canto fazendo um Zurga ao mesmo tempo dominador, apaixonado, sofrido e piedoso. No meu deles, o jovem soprano paulista Camila Titinger, de 25 aninhos, mostrou que já tem voz suficiente para encarar uma personagem principal. E apesar da juventude - 25 anos para o mundo da ópera equivale a infância - cantou com propriedade e segurança uma Leila cheia de coloratura e inflexões vocais que só uma segura e experiente atriz possui. Palmas para ela e que saiba fazer uma carreira rica e duradoura com as personagens certas para sua bonita voz.
   


CRÉDITOS:

OS PESCADORES DE PÉROLAS, ópera em 3 atos representada nas noites de 03, 11, 13 e 15 de setembro de 2015.
Georges Bizet (1838-1875), música
Michel Carré (1821-1872) e Eugène Cormon (1810-1903), libretto
Orquestra Sinfonica do Theatro da Paz
Coro Lírico do FEstival de Ópera do Theatro da Paz
Direção Musical e Regência: Miguel Campos Neto
Direção Cênica: Fernando Meirelles
Regente do Coro Lírico: Vanildo Monteiro
Cenografia: Cássio Amarante
Iluminação Cênica: Joyce Drummond
Figurinos: Verônica Julian
Coreografia: Marília Araújo
Visagismo: André Ramos
Supervisão: Gilberto Chaves e Mauro Wrona

ELENCO:
Fernando Portari (tenor), Nadir
Leonardo Neiva (barítono), Zurga
Camila Titinger (soprano), Leila
Andrey Mira (baixo), Nourabad

Produtor Executivo: Glaucivan Gurgel
Assistente de Direção Cênica: Danilo Gambini
Assistente de Iluminação Cênica: Leandro Pedott
Assistente de Cenografia: Luís Fernando Oliveira
Assistente de Coreografia: Mimi Kozlowski
Figurinista Assistente: Hélio Alvarez
Execução de Cenário: Ribamar Diniz
Assistente de Palco: Claudio Bastos, Laurinete Rodrigues, Michele Ferreira, Nonato Rodrigues
Consultoras de Visagismo: Anna van Steen e Katia Teivelis
Pianista Correpetidora: Ana Maria Adade
Maestros Internos: Ana Maria Adade e Vanildo Monteiro
Assistente de maestro interno: Christian Perrotta
Elaboração e Operação de Legendas: Gilda Maia
Instrutor de Lutas: José Pereira


VÍDEOS:

I ATO



II ATO


III ATO


EXCERTOS AO VIVO


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