A RAINHA LOUCA; ópera portuguesa estreia no Pará

Montar óperas nunca foi coisa fácil. E numa terra sem profissionalização da área e que os cantores líricos são mal formados e dependem das benesses da politicagem da Secretaria Estadual de Cultura e da Fundação Carlos Gomes, órgão estadual responsável pela política musical no estado do Pará, esta dificuldade é potencializada a mil. Portanto, receber a montagem de uma ópera composta a poucos anos na Europa na capital do estado é quase um milagre.
Mas milagres acontecem e o bom é que nós pudemos presenciá-lo. Eu não sei quais foram as forças que trouxeram, tanto o compositor quanto a ópera, à Belém do Grão-Pará. O fato é que ela foi apresentada dentro do XXIX Festival Internacional de Música do Pará em três noites: uma de ensaio aberto e duas de récitas, no Museu de Arte Sacra, antiga Igreja de Santo Alexandre. Um antigo colégio jesuíta do período barroco da capital paraense.
A obra de Alexandre Delgado é uma ópera para soprano sem nenhuma intervenção de qualquer voz masculina: só há mulheres na cena principal. Alguns bailarinos são usados, porém não compõem o corpo principal da ópera. Ela é toda dedicada à presença feminina em cena e assim supera a Suor Angelica de Puccini sendo ópera escrita somente para vozes femininas.
Delgado preferiu o caminho da melodia e não do cerebralismo da 2ª Escola de Viena e seus seguidores e, portanto, não assustou os ouvidos melódicos e tradicionais dos auvintes paraenses que assistiram as récitas dessa ópera portuguesa, com certeza. A Rainha Louca é ópera de câmera aos moldes de Benjamin Britten. Orquestra pequena composta de 13 músicos que reúne um quinteto de sopros e um de cordas, uma harpa, um cravo e instrumentos de percussão.
A ópera é estrutura em dois concisos atos apresentados em cerca de hora e meia de récita. Nada de árias intermináveis e diálogos longuíssimos da velha ópera. Esta é ópera dos tempos atuais, feita sob medida para a urgência de nossos dias e a rapidez de certos espetáculos artísticos, onde muita gente sai de casa já pensando em voltar.
Mas a concisão da ópera é uma estrutura acertada por Delgado. Eu faria o mesmo. Nada de gastar tempo dizendo em dez versos o que se pode dizer em cinco! Musicada no estilo da melodia infinita inaugurada por Wagner lá no século XIX, a ópera mostra que esse estilo de composição ainda é bastante atual e adequado para a linguagem operística do drama e da tragédia. Ela me fez lembrar da ópera A Ceia dos Cardeais, do paraense Iberê de Lemos, apresentada ano passado no Festival de Ópera por teres semelhança tanto na estrutura quanto na música composto. Considerando-se o tempo que as separa é fato afirmar que Delgado escreveu uma ópera nos moldes tradicionais da linguagem operística usada no século XX e da qual Benjamin Britten foi o grande arauto.
A Fundação Carlos Gomes providenciou uma filmagem integral e caseira das récitas, porém não posso afirmar se essa filmagem será disponibilizada ao público e nem por qual canal. De qualquer modo, os que encontrarem esta postagem poderão ter um pequeno exemplo dessa bela ópera portuguesa com os trechos que consegui gravar da última récita.




INFORMAÇÕES DO PROGRAMA:

"IGREJA DE SANTO ALEXANDRE
06  de junho de 2016 - 18h
Ensaio aberto
8 e 10 de junho de 2016 -18:00 - Récitas

A Rainha Louca - Ópera em dois atos
Música e Libretto de Alexandre Delgado

D. Maria I é a rainha louca, enclausurada num nundo de sonho e demência, por entre ecos da Revolução Francesa e do início da derrocada do Antigo Regime. Cômica, trágica e comovente, essa rainha "que deixou de o ser" é encarnada pelo soprano Ana Ester Neves.
Responsável pela criação da Academia das Ciências e da Biblioteca Nacional, promotora da primeira expedição cientifica à Amazônia, da renovação do ensino e da Marinha, D. Maria I (1734-1816) era culta e sensível, dada à música e às artes; reinar é que não estava na sua natureza. O seu enlouquecimento, que a afastou definitivamente do cargo em 1792, teve varias origens prováveis: padres fanáticos convenceram-na que seu pai, D. José I, ardia no inferno por culpa do Marques de Pombal e da perseguição aos jesuítas; à perda do marido somou-se a morte do seu filho primogênito, aos 27 anos, de varíola; os padres teriam proibido que lhe fosse inoculada a vacina que estava ser experimentada na época, "por ser contra a vontade de Deus". A prisão de Maria Antonieta e a ideia de que a própria França, luz do Velho Continente, podia decapitar a sua rainha, terão sido a gota de água.
D. Maria quer evadir-se para um mundo "longe desta miséria", um mundo do sonho e beleza simbolizado pela Basílica da Estrela, marca que ousa deixar numa Lisboa "que me não pertence, cheia de cães, de malfeitores e de lixo". A seu lado tem Henriqueta, jovem Duquesa de Lafões, gélida e azeda dama de companhia que traduz a reação desumanizada contra a sociedade. O confronto entre as duas mulheres preenche todo o primeiro ato entre discussões sobre a revolução, a cor da pele ou o amor. Outra presença é Rosa, a criada negra, cujo modelo histórico era uma anã acarinhada pela rainha que representa o bom selvagem, o ser das origens para o qual o conceito de pecado não existe. A fofa - 'uma dança obscena, lá das vossas áfricas' - será o seu modo de evasão, no fim da ópera. o 1º ato termina com a rainha a dançar o minueto, 'como outrora com o meu amado esposo".
o 2º ato concretiza alucinações de D. Maria, com três damas que a visitam no seu aniversário. Entre conversas sobre um sarau no Palácio de Queluz, o terremoto de 1755 ou o terror do Marquês de Pombal, as três damas traçam um retrato hilariante e delirante da história de Portugal. Os seus diálogos são interrompidos por monólogos e memorias da rainha, que fala de solidão e recorda, ao som de uma gavotte, o aeróstato que se elevou nos jardins do Palácio da Ajuda, levando um chimpanzé a que deu, secretamente, o nome de Estrela.
Numa orquestra de 13 músicos, com quinteto de sopros e quinteto de cordas, a harpa, o cravo e a marimba simbolizam respectivamente D. Maria, D. Henriqueta e Rosa. No 2º ato, tímpanos, xilofone e outras percussões contribuem para um clima mais exuberante.

Ficha Técnica

Música e Libretto: Alexandre Delgado (a partir da peça "O Tempo Feminino" de  Miguel Rovisco)
Direção musical: Alexandre Delgado
Encenação, cenografia e iluminação: Salmo Faria
Co-repetição: Christina Margotto

Elenco:
D. Maria I: Ana Ester Neves, soprano, Henriqueta e Dama Encarnada: Susana Teixeira, meio-soprano, Dama Verde: Ana Paulo Russo, soprano. Dama Amarela: Teresa Cardoso de Menezes, soprano. Rosa: Nilma Santos, atriz.

Toy Ensemble:
Carla Rodrigues, flauta / Andreia Pereira, oboé / Ricardo Alves, clarinete / Dario Ribeiro, trompa / Paulo Martins, fagote / Christina Margotto, cravo / Paulo Costa, percussão / Nikola Vasiljev, violino / Raquel Queiros, violino / David Lloyd, viola / Jed Barabal, violoncelo / José Fidalgo, contrabaixo / Maria Sá Silva, harpa.

Bailarinos: Cia. Ana Unger / Figurinos de época: Maria Gonzaga

Figurinos e adereços: Salmo Faria

Caracterização, maquiagem e perucas: Salmo Faria

Desenho de Luz: Salmo Faria

Produção artística e coordenação (Portugal): Christina Margotto

Produção e Coordenação (Belém): Ana Maria Adade e Estúdio de Ópera

Técnicos de luz (operadores): Rubens Almeida / Lauro Matos

Ballet: Cia. de Dança Ana Unger

Bailarinos: Raul Vargas, Gerson Cruz, Artur Furtado, Bruna Pôjo, Eduarda Falesi, Milene Abnader, Paulo Dias, Luiz Cunha, Giovana Freitas, Lene Caldas.

Figurinos de Época: Maria Gonzaga

A Rainha Louca é a segunda ópera do compositor português Alexandre Delgado (n. 1965), estreada em Lisboa em 2011. Baseada na peça "O Tempo Feminino" de Miguel Rovisco, inspira-se na figura trágica da rainha D. Maria I de Portugal (1734-1816), que perdeu a razão em 1792 e veio a falecer no Rio de Janeiro. Em dois atos, com um elenco exclusivamente feminino de quatro cantoras e uma atriz, é uma ópera que visita os fantasmas da mente humana, ao som de um século XVIII imaginário.


VÍDEOS:

Ato I: excertos

video


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IMAGENS:














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