sábado, 1 de outubro de 2016

A Turando de Puccini no Festival de Ópera do Teatro da Paz

   Em 2016 o Festival de Ópera do Teatro da Paz pôs em sua programação uma cantata de Astor Piazzolla e a última ópera de Giacomo Puccini. Uma ópera tão grandiosa que uma montagem adequada não depende somente de dinheiro, mas também de talento dos artistas envolvidos. Pois bem, a montagem paraense da ópera de Puccini ficou longe da qualificação de grandiosa. Posso até afirmar que é a pior montagem que já assisti no Festival até hoje. Tudo que podia dar errado nela deu. Os fatores para isso foram uma combinação de elementos que não casaram bem. Enumerarei:
 

1. Os cenários: Quem assistiu em vídeo a clássica montagem da Ópera Metropolitana de Nova York feita por Zeffirelli em 1988 e até hoje adorada e reprisada pelo MET com vários elencos diferentes, é claro, certamente fica maravilhado com o espetáculo visual do realismo colorido e maravilhoso da cenografia do gênio italiano. Só uma olhada na produção paraense deu-me uma tristeza imensa de ver aquela pobreza visual e enfadonha no palco. Como bem me disse um amigo que comigo assistiu a segunda noite: "Este cenário está feio". Nem de longe o cenografista Roni HIrsch colocou no palco os cenários adequados à uma apresentação bonita e luminosa da ópera pucciniana.

2. Os solistas: Excluindo o excelente Timur de Sávio Sperandio e Kézia Andrade que não houvi, o resto do elenco na muita bondade alcança um conceito regular nas suas interpretações. Não porque sejam cantores ruins, mas pelo fato de estarem deslocados de sua zona de conforto, ou seja, o seu repertório tradicional. Isto para um cantor lirico e ator de ópera é fatal. Eliane Coelho cantou a wagneriana Turandot como se estivesse cantando Norma, Elvira ou Leonora. Muito portamentos e fraseados belcantistas numa ópera descaradamente pós-wagneriana e, claro, sinfônica, escrita por um italiano de formação pós-verdiana. Turandot foi cantada por Eliane Coelho sem a violência vocal que a personagem requer e com uma preocupação desmedida com o fraseado: daí minha afirmação anterior do desnecessário estilo belcantista usado por ela. Quem viu ao vivo e lembra da Leonora que ela fez no Trovador sabe o quão grandiosa ela foi naquela montagem, pelo fato de estar cantando uma personagem adequada à sua técnica vocal e, creio, até à sua personalidade musical. Fúria vocal? Sim, ela tem, pois do contrário não teria nos dados uma ótima leitura da cavatina de Lady Macbeth no concerto de encerramento do Festival no ano passado. Mas a fúria vocal de Lady Macbeth tem 100 anos de distância da fúria vocal da androfóbica princisa chinesa. Resumo da ópera: A Turandot pucciniana é para um soprano wagneriano de garganta arreganhada mais preocupado em emitir os hiperagudos com violência e sua canto furioso do que se preocupar com um lindo fraseado como se estivesse cantando uma linda ária apaixonada e melosa das heroínas de Donizetti. Richard Bauer, doente, nem de longe lembrou o vozeirão que cantou o Pery na Il Guarany de Carlos Gomes ao lado de Adriane Queiroz alguns anos atrás. Na primeira noite sua voz estava ondulante e muito frágil. Ao seu Calaf faltou a força vocal que o papel exige e visivelmente Richard estava desanimado demais para dar viço à sua interpretação. Totalmente sem expressividade facial e manejo corporal pareceu um robô cantante. Só não foi um "poste cantante" porque usou as pernas para se mexer de um lado para outro. Meus informantes me disseram que sua qualidade vocal estava ruim mesmo durante os ensaios. Então sua doença não foi a principal causadora da sua derrocada vocal. Pareceu-nos que a voz de Richard já está deteriorando; o que é muito triste se for verdade. Luciana Tavares, que para quem já a viu cantar anteriormente, não fez o que é capaz fazer e não foi uma boa Liú nesta montagem. Cantou com voz inexpressiva e técnica inapropriada para a música de Liú, apesar de ser o soprano lírico que Puccini requer para a sua derradeira personagem feminina apaixonada e que nada pede em troca do seu amor. Mais pucciniano do que isso só Mimi. O trio de ministros do imperador foi feito pelo barítono Homero Velho e pelos tenores Antônio Wilson e Giovanni Tristacci. Dos três, Antonio Wilson totalmente deslocado de seu repertório vocal quase não foi ouvido, engolido pela pesada sonoridade da orquestra e num papel que, todos sabemos, ele não possui voz para cantar. É só assistir ou ouvir sua participação na Cambiale di Matrimonio feita alguns anos atrás no Festival para entender o que estou dizendo. Homero Velho soube perfeitamente liderar o trio de grosseiros ministros imperiais com seu vozeirão baritonal e uma boa presença cênica. Mas também ficou abaixo do que ele é capaz de fazer no palco. Giovanni Tristacci, que costuma cantar repertório bem mais leve que o wagneriano, também não se deu bem vocalmente com seu Pang, porém foi mais audível que Antonio Wilson. Mas isso só quando a orquestra deixava. Cantar Mozart é uma coisa e cantar Puccini é outra. Em suma, cantar óperas que não são para sua classificação vocal é uma desgraça total. Perde-se volume, qualidade vocal, fraseado, etc, etc, etc,


3. O Coro: Totalmente inexpressivo nesta montagem. Nem de longe lembra o coro que segurou e salvou muitas montagens do Festival nos anos anteriores. Novamente preparado por Vanildo Monteiro não sei o que aconteceu desta vez. Cenicamente, o que coro foi muito mal preparado e sua movimentação no palco chegou a dar vergonha alheia. O som, que em outras produções foi sempre sinfônico e de grande beleza, nesta perdeu os dois e ficou pálido e sem expressividade. Justamente nesta ópera em que o coro é parte fundamental da partitura e precisa abrir a garganta para alcançar uma sonoridade maciça e até histérica para melhor compor os momentos de desespero pelo qual passo o povo de Pequim, sempre rondado pela morte.


4. A orquestra: Houve um problema bem audível com a orquestra: muitos tempos foram atacados atrasados ou adiantados, principalmente, pelos solistas, o que deixou a execução cheia de entradas imperfeitas. Pareceu-me que os solistas ou não prestaram atenção às entradas de Miguel ou a orquestra estava "descompassada" com os solistas. Eu assisti a ópera da platéia; que não é o melhor lugar para se ouvir música no Teatro da Paz devido ao direcionamento de sua acústica, por isso em muitos momentos ouvi uma orquestra pálida e sem a luminosidade imprimida por Puccini em sua orquestração. Mas o volume orquestral foi bom. Tanto que alguns solistas como Antonio Wilson em muitos momentos nem chegou a ser ouvido. O descompasso da orquestra com o coro também foi flagrante, devido a perda na sonoridade algo histérica dada ao coro. No fim, também a orquestra não se deu muito bem nesta segunda noite. 

Imagens:



























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