segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Memórias Ribeirinhas: Um olhar além do rio

 Fim de ano tem vários eventos e muitas famílias que têm filhos em alguma escola que costuma fazer apresentações de final de ano, sobretudo as artísticas, têm um evento obrigatório: a apresentação deles em algum teatro da cidade ou outro local. Pois bem, como minha irmã é professora na Escola Municipal de Dança de Belém, capital paraense, e há vários anos a instituição costuma seguir a tradição de fechar o ano letivo com uma mega apresentação teatral.
     Neste ano de 2016 novamente a apresentação se deu no Theatro da Paz. Incluindo todos os seguimentos trabalhados na escola, pois como escola inclusiva atende deste meninas na primeira idade até senhoras sexagenárias e deficientes físicos e mentais, como cadeirantes; que este ano também participaram da apresentação.
    Como escola inclusiva e não técnica, não dá para fazer uma crítica com se estivesse assistindo uma récita da Cisne Negro ou da Bolshoi. Como escola inclusiva, deu para ver que os seus professores fazem um trabalho com paixão e entrega. Coisa rara na educação deste país, onde o trabalho jogado, infelizmente, se tornou o corriqueiro. Afinal, é o tipo de trabalho que os próprios alunos desejam.
    Mas a Escola Municipal de Dança de Belém superou o trabalho apresentado no ano passado, dando-nos este ano um espetáculo bem mais variado que o Chapleando de 2015.
   O foco foram os rios que circundam e avançam sobre a capital paraense e que são tratados, por todos, com um desprezo ambiental de dar dó naqueles ecologicamente corretos e que tanto prejudica a cidade e sua qualidade de vida. Afinal, água é vida bem sabem aqueles que vivem nos desertos ou no agreste brasileiro. Como aqui há uma abundância de água, há aquela incômoda sensação, ou crença, de que nossa água é eterna: inverdade absoluta e que o povo belenense precisa se conscientizar.
   Musicalmente, o espetáculo foi recheado de música popular paraense o que. lógico, deixou o espetáculo bem mais familiar aos nossos ouvidos. Até mesmo daqueles que não são fãs da nossa música.
    Coreografia inventiva, música agradável, iluminação bem preparada, cenários e figurinos bem pensados. No final, foi um bonito espetáculo.


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sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

UFPA promove 9ª de Beethoven

     Ai, ai. Chega a ser vexatório ver tanta gente envolvida em algo que dá vergonha alheia. A situação vexatória desta vez foi protagonizada pelo efetivo reunido em torno da Orquestra Sinfônica Altino Pimenta pertencente à Escola de Música da Universidade Federal do Pará e regente, pasmem, pelo mesmo Miguel Campos Neto que rege a Orquestra Jovem Vale Música e Orquestra Sinfônica do Teatro da Paz. São três filhos muito diferentes vindos do mesmo pai. O que me deixa mais firme na certeza de que o que faz uma orquestra não é o regente e sim os instrumentistas dela. Miguel é bom regente todos sabemos. Porém, nem mesmo um bom regente como ele é capaz de tirar boa música de músicos tecnicamente inferiores como é o caso evidente desta OSAP. 
    Há também o caso Fábio Martino, um jovem pianista brasileiro, que há alguns anos recusou-se a tocar com esta orquestra por "se sentir desconfortável" ao tocar com ela durante os ensaios para um concerto que aconteceria também no Encontro de Arte de Belém e teve seu recital de piano solo totalmente prejudicado pelo público que não parou quieto um minueto sequer. Um estudante da EMUFPA me disse que foram parentes dos integrantes da orquestra que se organizaram para sabotar o recital em represália a sua recusa. Pode ser verdade, pois eu estava lá e presenciei incomodado toda a barulheira feita pelo público que não se incomodou em nenhum momento ao levantar das cadeiras e andar pelo teatro sem a preocupação com o silêncio. Fábio foi um guerreiro, pois tocou todo o recital sem se deixar abalar, mas mostrou sua cara de irritação na ora dos agradecimentos pelos poucos aplausos que recebeu. Este ocorrido mostro a fraqueza da OSAP e que ainda falta muito para esta orquestra alcançar o nível da OJVM, que também é uma orquestra de escola, porém já alcançou um nível profissional faz tempo. Miguel ainda terá muito trabalho pela frente se quiser nos dar um som minimamente palatável no futuro com esta OSAP.
    Mas heis que chego ao fator principal desta postagem; a sinfonia. Tadinho do Beethoven. Foi maltratado, achincalhado, torcido e retorcido, exposto à vergonha pública e jogado no mármore do inferno por esta realização de sua 9ª Sinfonia tão brutalmente esculhambada que, se ele estivesse vivo, teria morrido todo esfolado com requintes de crueldade.  
     Tecnicamente, a orquestra foi muito fraca. Literalmente. O som foi muito baixo durante toda a apresentação. Nem mesmo os compassos em fortissimo tiveram um som mais volumoso. O 1º movimento foi massacrado com uma interpretação arrastada, sem força nos ataques e cordas completamente apáticas. O 2º movimento não melhorou em nada o anterior e as observações dele continuam para este, com a observação de que a força interpretativa necessária a este movimento , cheio de ímpeto musical, de impetuoso não teve nada. O 3º movimento; melodiosísimo, até que deu pro gasto, mas gastou muito o talento de Campos Neto. Hei que chega o 4º movimento. E o melhor nele foi o coro. Sim, senhores; o coro. Como os agrupamentos corais na capital paraense são muito bons, principalmente, os coros sinfônicos. O coro foi a melhor, talvez, única boa apresentação nesta patetada musical. Os solistas fizeram o que podem com a técnica que têm hoje. Antônio Wilson (tenor)  e Idaías Souto (baixo) formaram uma dupla de vozes masculinas irregular, pelo fato de Wilson ter muito mais experiência como solista que Souto, que ainda está no caminho de descoberta de suas capacidades vocais. Sob a atual orientação de Jena Vieira, ele está avançando na sua técnica vocal e cantando dentro dos seus limites vocais; o que é sempre aconselhável para todos diria Alfredo Kraus. As solistas mulheres são praticamente desconhecidas para mim e, por isso, não formarei opinião sobre suas participações. Mas digo, que na técnica, elas estão indo bem.  Resumo da ópera: quem não tem condições de apresentar coisa boa não nos apresente coisa ruim.
   



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sábado, 10 de dezembro de 2016

Festival revive tradição musical

A PROVÍNCIA DO PARÁ, 12 CADERNO - 12 - 22 de maio de 1994

Festival revive tradição musical

     Logo mais, às 21 horas quando a Orquestra de Câmera do Pará tocar no Teatro da Paz, os primeiros acordes do Concerto em Fá Maior de Vivaldi estará aberto o VII Festival Internacional de Música de Câmera realizado pela Fundação Carlos Gomes. Participam do evento 41 músicos. Entre eles, nomes de peso como a violinista americana Eva Szekely e seu par, o pianista Daniel Schene. Ainda dos EUA veio o regente David Rayl, que se apresenta pela primeira vez no Pará. Também estreando no Festival, está o tenor Reginaldo Farias.
     O primeiro festival foi realizado em 1988 e durante todos estes anos, ele tem servido de estímulo para os alunos do Conservatório Carlos Gomes e principalmente tem colocado Belém no circuito mundial de música erudita.
     Eva Szekely conta que já foi perguntada sobre o Festival Paraense em outras capitais brasileiras e em outros países da América Latina, como o Chile, por exemplo. Para Szkely (sic), os paraenses ainda não se deram conta da importãncia do Festival e de como ele proteje (sic)Belém no cenário musical "Músicos de outros países, como Holanda e Estados Unidos vêm aqui e não chegam no seu país falando de São Paulo ou Fortaleza. Eles falam de Belém".
     Seguindo esta linha de pensamento, Eva descarta argumentos que sustetam que Belém está fora do circuito. "Hoje a cidade é um importante pólo musical", diz.
     Eugene Ratchev, regente da Orquestra de Câmera do Festival, contabiliza entre 10 e l5 anos para serem colhidos os frutos do trabalho de profissionalização que vem sendo feito pela Fundação. Segundo Ratchev ainda impera entre os alunos o pensamento de que a música é um hobbie. "Temos que mudar a cabeça de uma geração inteira", diz. Eugeni lembra que o tempo de formação de um músico europeu é em média 20 anos. "Mas o Festival serve de estímulo para os alunos", acredita.
     As palavras de Eugene encontrou (sic) eco em Maria Cláudia Oliveira, 25. Ela começou a estudar no Conservatório ainda criança e acabou indo estudar percussão em São Paulo. Este é o primeiro Festival de Cláudia e ela apresenta-se como regente do Grupo de Percussão da FCG. A regente diz que a música feita pelo grupo é erudita, mas tem um "molho folclórico", influenciado pelos ritmos africanos e indígenas.
     Uma opinião comum entre os músicos que participam, do Festival é a formação de platéia. Eva Szekely diz que o público paraense é mais jovem do que o freqüentador de salas de concerto na Europa e nos Estados Unidos. Além de ser mais entusiasta. "Isto não é só um Festival, mas uma celebração da música", define a violinista. Eva, que participa desde a primeira versão do evento, diz que alunos que tinham 16 anos na época do I Festival, hoje já tem mais de 20 e apesar de muitos terem interrompido os estudos musicais, continuam freqüentando salas de concerto.
     "É preciso lembrar que existe todo um trabalho por trás do Festival", lembra Eva ao falar sobre o trabalho da Fundação Carlos Gomes. Ratchev concorda com sua companheira de violino e reclama da falta de apoio financeiro que é dado ao Festival. "As empresas deviam colaborar mais", diz. Festivais do porte do FESTICAM costumam custar, em média, 300 mil dólares. No Pará, o evento é orçado em 80 mil. E mesmo assim, a penúria é total. Este ano, a Fundação espera contar com público de 16 mil pessoas divididas entre os 15 recitais do Festival. O que dá um custo de 0,3 dólares por cada cidadão que assita gratutitamente as apresentações.

     Eva Szekely lembra que o Festival não inova ao trazer grandes nomes da música a Belém. O evento apenas revive os áureos tempos do Teatro da Paz, quando há 100 anos apresentavam-se no seu palco, os maiores nomes da arte mundial. "É só olhar as placas do Teatro para conhecer a história", indica Eva. Pelo TP já passaram Jascha Heifetz, considerado o melhor violinista depois de Paganini. A bailarina russa Ana Pavlova e as brasileiras Bidu Sayão e Guiomar Novaes, entre outros. 


Música: um produto de exportação

     Um dos grandes momentos do Festival Internacional de Música de Câmera deste ano está nas mãos do regente Americano David Rayl. Rayl teve menos de 20 dias para colocar no ponto um coro de 12.0 amadores que vão dividir com a sinfonieta do Festival (formada por todos os participantes) o palco do Teatro da Paz no encerramento do VII FESTIC~I1.
Quando David Rayl foi convidado para reger e terminar de preparar um coro formado por amadores paraenses não sabia o que esperar, "Não tinha nenhuma expectativa, porque não sabia o que me esperava", confessa. É bem verdade que Rayl contou com a impagável colaboração do veterano regente-preparador paraense João Bosco, responsável pelo madrigal da UFPa. Bosco selecionou os interessados em participar do coro e os ensaiou por 15 dias, até a chegada de Ravl.
"Me surpreendi com o nível e principalmente com a disposição das pessoas", diz o regente americano. Segundo ele, as inovações que ele pediu ao coro, no sentido de dar mais melodia e menos linearidade às canções foram prontamente atendidas.
     Além de amadores, o coro vai contar com solistas profissionais e alguns até bastante famosos como o tenor Reginaldo Pinheiro. Um paraense que nunca tocou em Belém vive na Alemanha, de onde se estende em shows pela Holanda, Bélgica e França. Pinheiro vai fazer um recital, acompanhado pelo pianista russo Serguei Kovalenko e vai solar no coro de encerramento, junto com Alpha Oliveira e Adriane Queiroz.

     Rayl, Eva e o pianista Daniel Schene (que faz um duo com Szekely) dizem que a música (principalmente a popular) é o melhor produto brasileiro "for export". Através dela, o Brasil fica conhecido mundialmente e influencia a produção de compositores de outros lugares bem distantes do trópico do Equador. Os ritmos brasileiros podem ser sentidos até em compositores eruditos contemporâneos, como o Frances Darius Milhaud, que foi cônsul no Brasil e imprimiu o tropicalismo em suas músicas. 

Festival promove uma celebração da música

O LIBERAL. Belém sábado 21 de maio de 1994 3 cad. 4

Festival promove uma celebração da música

     "Aqui em Belém as pessoas ainda têm uma visão errada da importância que esta cidade realmente possui. Conheço músicos holandeses que aqui estiveram e que, quando voltaram ao seu país, falaram de Belém e não do Rio, São Paulo, Fortaleza ou Porto Alegre". A declaração é da violinista americana Eva Szekely, que não se furta de colocar em seu currículo as inúmeras participações nos festivais internacionais de música de câmera, promovido há sete anos pela Fundação Carlos Gomes. Ela estará amanhã, às 21 horas, no palco do Teatro da Paz, com Antonio Del Claro, Nicolai Khit e a Orquestra de Câmara do Pará, regida por Eugeni Ratchev, para a abertura do VII Festival de Música de Câmera do Pará.
     Eva Szekely, do alto de sua experiência musical, com apresentações em diversos países, acredita que Belém há muito está no circuito dos eventos musicais importantes e que só não vê isso quem ainda tem uma idéia estreita da cidade". "Aqui a maioria das pessoas é jovem, entusiasta, bem mais do que eu pude ver nas cidades porque passei. Esse trabalho de formação de platéia é diretamente proporcional ao trabalho educacional desenvolvido, pela Fundação Carlos Gomes", completa a violinista, lembrando que há um século a tradição cultural era aqui, no Norte, quando para cá vieram importantes artistas internacionais e se apresentaram no Teatro da Paz.
     O festival este ano não traz muitas novidades, no que diz respeito a atrações de fora. Voltam a se apresentar o Quinteto de Metais da Paraíba e o pianista americano Daniel Schene, como convidados. Além desses, participam músicos e grupos, brasileiros e estrangeiros, atuantes em Belém, como o Trio Camerístico Paraense, o Conjunto de Música Antiga, as pianistas Lenora Brito e Eliana Kotschoubey, o Grupo de Percussão Brasil, o Grupo de Percussão da FCG, o pianista russo Sergei Kovalenko e outros.
     Mas uma atração é, de fato, especial. O tenor brasileiro Reginaldo Pinheiro, que se apresentará, no dia 27, acompanhado por Sergei Kovalenko. Reginaldo saiu de Belém na década de 80, para estudar canto. Ganhou um concurso internacional, que lhe deu direito a uma bolsa de estudos na Alemanha. Desde então, o cantor tem desenvolvido uma carreira  brilhante na Europa, ganhando prêmios em concursos, que lhe garantem uma agenda cheia de contratos ao longo dos anos. Mas aqui no Brasil ele ainda é um ilustre desconhecido. Será uma oportunidade rara ouvi-to cantar em sua terra .
     Como em todos os anos, o festival vai reunir uma orquestra sinfônica, com todos os músicos participantes, e, neste ano, um coro também vai ser formado, para interpretar a Missa em Sol Maior, de Schubert, as "Bodas de Fígaro" e a Sinfonia de Praga, de Mozart. O regente será o americano David Rayl que no início não sabia muito o que esperar do festival, mas ficou surpreso com os músicos que lhe foram apresentados. "As pessoas aqui têm boa vontade e boa memória. O coral, preparado pelo professor João Bosco Castro, já melhorou a qualidade vocal e a linha melódica, do jeito que eu queria. Eu já trabalhei, no Missouri, com voluntários, mas aqui as pessoas têm outro nível, elas respondem mais rápido às exigências que eu peço", elogia o maestro.
     O entusiasmo que perpassa o discurso dos músicos estrangeiros dá o tom a este festival. É um festival de verdade, uma celebração da música", diz o pianista Daniel Schene. Entusiasmada também está a percussionista brasileira Maria Cláudia Olíveria que, pela primeria vez, vai reger, no festival, o Grupo de Percussão da casa. Depois de quatro anos de estudos na Universidade Estadual de São Paulo e prêmios ganhos em concurso, Maria Cláudia Oliveira é o típico exemplo da jovem que foi platéia dos primeiros festivais e hoje volta a ele para ocupar um lugar de honra.

     Tudo isso faz parte do roteiro do evento que abre amanhã e vai tomar conta da cidade até o dia 29, dividindo as atrações entre a Sala Ettore Bosio, na Fundação Carlos Gomes, e o Teatro da Paz. A entrada é franca, mas o público tem de adquirir seus ingressos no local dos eventos, uma hora antes de cada espetáculo. O programa pode ser adquirido na Fundação Carlos Gomes, à avenida Gentil Bittencourt, 909.