Festival revive tradição musical

A PROVÍNCIA DO PARÁ, 12 CADERNO - 12 - 22 de maio de 1994

Festival revive tradição musical

     Logo mais, às 21 horas quando a Orquestra de Câmera do Pará tocar no Teatro da Paz, os primeiros acordes do Concerto em Fá Maior de Vivaldi estará aberto o VII Festival Internacional de Música de Câmera realizado pela Fundação Carlos Gomes. Participam do evento 41 músicos. Entre eles, nomes de peso como a violinista americana Eva Szekely e seu par, o pianista Daniel Schene. Ainda dos EUA veio o regente David Rayl, que se apresenta pela primeira vez no Pará. Também estreando no Festival, está o tenor Reginaldo Farias.
     O primeiro festival foi realizado em 1988 e durante todos estes anos, ele tem servido de estímulo para os alunos do Conservatório Carlos Gomes e principalmente tem colocado Belém no circuito mundial de música erudita.
     Eva Szekely conta que já foi perguntada sobre o Festival Paraense em outras capitais brasileiras e em outros países da América Latina, como o Chile, por exemplo. Para Szkely (sic), os paraenses ainda não se deram conta da importãncia do Festival e de como ele proteje (sic)Belém no cenário musical "Músicos de outros países, como Holanda e Estados Unidos vêm aqui e não chegam no seu país falando de São Paulo ou Fortaleza. Eles falam de Belém".
     Seguindo esta linha de pensamento, Eva descarta argumentos que sustetam que Belém está fora do circuito. "Hoje a cidade é um importante pólo musical", diz.
     Eugene Ratchev, regente da Orquestra de Câmera do Festival, contabiliza entre 10 e l5 anos para serem colhidos os frutos do trabalho de profissionalização que vem sendo feito pela Fundação. Segundo Ratchev ainda impera entre os alunos o pensamento de que a música é um hobbie. "Temos que mudar a cabeça de uma geração inteira", diz. Eugeni lembra que o tempo de formação de um músico europeu é em média 20 anos. "Mas o Festival serve de estímulo para os alunos", acredita.
     As palavras de Eugene encontrou (sic) eco em Maria Cláudia Oliveira, 25. Ela começou a estudar no Conservatório ainda criança e acabou indo estudar percussão em São Paulo. Este é o primeiro Festival de Cláudia e ela apresenta-se como regente do Grupo de Percussão da FCG. A regente diz que a música feita pelo grupo é erudita, mas tem um "molho folclórico", influenciado pelos ritmos africanos e indígenas.
     Uma opinião comum entre os músicos que participam, do Festival é a formação de platéia. Eva Szekely diz que o público paraense é mais jovem do que o freqüentador de salas de concerto na Europa e nos Estados Unidos. Além de ser mais entusiasta. "Isto não é só um Festival, mas uma celebração da música", define a violinista. Eva, que participa desde a primeira versão do evento, diz que alunos que tinham 16 anos na época do I Festival, hoje já tem mais de 20 e apesar de muitos terem interrompido os estudos musicais, continuam freqüentando salas de concerto.
     "É preciso lembrar que existe todo um trabalho por trás do Festival", lembra Eva ao falar sobre o trabalho da Fundação Carlos Gomes. Ratchev concorda com sua companheira de violino e reclama da falta de apoio financeiro que é dado ao Festival. "As empresas deviam colaborar mais", diz. Festivais do porte do FESTICAM costumam custar, em média, 300 mil dólares. No Pará, o evento é orçado em 80 mil. E mesmo assim, a penúria é total. Este ano, a Fundação espera contar com público de 16 mil pessoas divididas entre os 15 recitais do Festival. O que dá um custo de 0,3 dólares por cada cidadão que assita gratutitamente as apresentações.

     Eva Szekely lembra que o Festival não inova ao trazer grandes nomes da música a Belém. O evento apenas revive os áureos tempos do Teatro da Paz, quando há 100 anos apresentavam-se no seu palco, os maiores nomes da arte mundial. "É só olhar as placas do Teatro para conhecer a história", indica Eva. Pelo TP já passaram Jascha Heifetz, considerado o melhor violinista depois de Paganini. A bailarina russa Ana Pavlova e as brasileiras Bidu Sayão e Guiomar Novaes, entre outros. 


Música: um produto de exportação

     Um dos grandes momentos do Festival Internacional de Música de Câmera deste ano está nas mãos do regente Americano David Rayl. Rayl teve menos de 20 dias para colocar no ponto um coro de 12.0 amadores que vão dividir com a sinfonieta do Festival (formada por todos os participantes) o palco do Teatro da Paz no encerramento do VII FESTIC~I1.
Quando David Rayl foi convidado para reger e terminar de preparar um coro formado por amadores paraenses não sabia o que esperar, "Não tinha nenhuma expectativa, porque não sabia o que me esperava", confessa. É bem verdade que Rayl contou com a impagável colaboração do veterano regente-preparador paraense João Bosco, responsável pelo madrigal da UFPa. Bosco selecionou os interessados em participar do coro e os ensaiou por 15 dias, até a chegada de Ravl.
"Me surpreendi com o nível e principalmente com a disposição das pessoas", diz o regente americano. Segundo ele, as inovações que ele pediu ao coro, no sentido de dar mais melodia e menos linearidade às canções foram prontamente atendidas.
     Além de amadores, o coro vai contar com solistas profissionais e alguns até bastante famosos como o tenor Reginaldo Pinheiro. Um paraense que nunca tocou em Belém vive na Alemanha, de onde se estende em shows pela Holanda, Bélgica e França. Pinheiro vai fazer um recital, acompanhado pelo pianista russo Serguei Kovalenko e vai solar no coro de encerramento, junto com Alpha Oliveira e Adriane Queiroz.

     Rayl, Eva e o pianista Daniel Schene (que faz um duo com Szekely) dizem que a música (principalmente a popular) é o melhor produto brasileiro "for export". Através dela, o Brasil fica conhecido mundialmente e influencia a produção de compositores de outros lugares bem distantes do trópico do Equador. Os ritmos brasileiros podem ser sentidos até em compositores eruditos contemporâneos, como o Frances Darius Milhaud, que foi cônsul no Brasil e imprimiu o tropicalismo em suas músicas. 

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