Estreia o 7º Festival de Música de Câmera do Pará - Diário do Pará

Diário do Pará segunda-feira, 23 de maio de 1994 Caderno O, 1 c..----
Iniciou ontem o 7º Festival Internacional de Música de Câmera do Pará, uma promoção do Governo do Estado e Fundação Carlos Gomes. Os norte-americanos David Rayl, Daniel Schene e a romena Eva Szekely falam de suas impressões sobre o festival e sobre Belém Festival paraense celebra a música.
Hamilton Braga
Da Editaria de Cultura

Com mudanças de última hora, estreou ontem, domingo, às 21:00h, no Teatro da Paz,
o 7º Festival Internacional de Música de Câmera do Pará, com a Orquestra de Câmera do Pará, com Antônio del Claro como solista. A novidade não é novidade, isto é, no encerramento, dia 29, não haveria orquestra do festival. Mas decidiu-se manter a estrutura como nos outros anos, formando-se uma sinfônica integrada pelos participantes do evento. A diferença é de que haverá também o coro, regido pelo americano Davíd Rayl.
David deveria. ter vindo a Belém há seis meses, pelo projeto Pará-Mlssoury, mas foi possível somente agora. Ele ficará na cidade por duas semanas. Pegou como tarefa ensaiar o Coro do Festival, ensaiado anteriormente pelo paraense João Bosco Guimarães. É a primeira vez que David Rayl vem a Belém, e disse que trouxe expectativas. "Fiquei surpreso de encontrar uma orquestra aqui de bom nível", disse, referindo-se à orquestra camerística paraense. O trabalho com o coro tem lhe impressionado pela flexibilidade dos integrantes, que atendem prontamente às suas orientações. A violinista romena Eva Szekely, que mora nos Estados Unidos, afirma que "as pessoas estão afinadas", e isso não se refere somente ao canto, mas ao relacionamento.
Num festival como este, em que um coro e uma orquestra são ensaiados em pouco tempo, a boa vontade e a competência são fundamentais. Eva, que se apresenta em duo com o pianista americano Danief Schene, diz que "o ponto alto é colocar Belém na rota da música erudita no mundo". Ela conta que ao se apresentar na Argentina, Venezuela, em outras parte do Brasil, há uma grande curiosidade sobre o festival paraense, impresso no currículo de Eva nada menos que seis vezes. Este é o sétimo festival de Eva.
Se há curiosidade de saber se é mesmo possível um festival internacional em Belém, Eva Szekely afirma que não deveria ser por Belém estar incluída no Brasil como uma cidade pequena. "Eu moro em Saint Louis, uma cidade com 120 mil habitantes". Belém possui cerca
de 1,5 milhão de habitantes. Para a violinista, "é um. engano pensar que Belém está fora do circuito. Na Europa, não me perguntam sobre. São Paulo, Curitiba, Brasilia, mas sim sobre Belém. Mesmo as pessoas daqui (de Belém) não conseguem perceber a importância da cidade e do trabalho da Fundação Carlos Gomes para a cidade".
O que motiva muito Eva vir anualmente a Belérn, é o público. "Na Europa e Estados Unidos a média de idade do público é de 40, 50 anos, e em Belém são pessoas muito jovens, é o público mais entusiasmado que já vi". Para a violinista, o trabalho de formação de platéia da Fundação Carlos Gomes é diretamente proporcional ao sucesso dos projetos da instituição.
Na verdade, a FCG, na análise de Eva, está rejuvenescendo a tradição. "No início do século a tradição estava em Belérn", afirma a violinista. De fato. Na fase áurea da borracha, quando a Amazônia dominava o comercio do látex, um produto essencial para aquela época,Belém, que era a Paris na América, trazia anualmente centenas de companhias italianas e nomes retumbantes da músíca e da dança, como Ana Pavlova. Portanto, o festival paraense é uma continuidade, quase um século depois, de uma tradição de bons eventos, agora, com a diferença de ser aberto a todas as classes econômicas, já que a entrada é franca.
Para Daniel Schene, "é um festival de verdade, já que ocorre a celebração da música; a música erudita brasileira fica incluída no programa. Além disso, o Teatro da Paz é maravilhos. Por falar em música brasileira, Villa-Lobos ainda é a maior referenda no exterior,
segundo os entrevistados. Daniel Schene afirma que Marcus Garcia, na parte de coral, "é o Mozart brasileiro". Eva acrescenta que Carlos Gomes divulgou muito o Brasil na Europa. "Há um busto dele no Teatro Scalla de Milão". Sobre a música popular, Eva diz que a MPB "fez mais pelo Brasil do que qualquer outra coisa; é o melhor produto de exportação". David Rayl afirma que a presença da música brasileira no mundo acaba influenciando músicos estrangeiros. Eva afirma que o francês Darios Milhaud tem evidente influências brasileiras.
E a música brasileira estará bem representada no 7º Festival. Uma das boas atrações é o Quinteto de Cordas Ravel, da Paraíba. Entre os grupos da Fundação, o Grupo de Percussão da FCG, dirigido pela paraense Maria Cláudia Oliveira, que esteve ausente de Belém por quatro anos e retomou e deu ânimo aos percussionistas. Ela conta que o grupo apresenta um repertório geral e internacional de percussão, mas admite que por ser paraense, onde a percussão é forte (dupla influência: negra e indígena), "a gente acaba colocando um certo molho".

Nesta segunda-feira, ao meio-dia, na Sala Ettore Bosio, apresenta-se o Trio camerístico paraense. À noite, é a vez do Quinteto de Cordas Ravel (leia quadro com a programação). 

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